Procuro e não encontro, a não ser o que está além de mim. Sinto o voo e permaneço em terra.
Temporal sereno, espírito de outra paz, assim se invade a cada passo a imensidão de existir. Porém, poucos são os que vêem, mas muitos olham,
as coisas que acabam e começam em cada sono, e na manhã se projectam pelas janelas, trazendo os instrumentos com que se há-de pintar o tempo. Das cores nada se sabe: tudo são formas começadas numa muralha de sangue sobre o mundo, descendo lentamente sobre o corpo até se fundir num outro mundo mais profundo, ápice que a voz descreve quando canta na linguagem do murmúrio.
Tudo parte depois, pelos ribeiros, anunciando líricos desfechos. Mas a realidade ensina a ser prudente, e até sermos poetas, teremos que aprender primeiro as armas do silêncio, que nos resignarmos a uma dor falsa e vertical que nos preenche as mãos como fantasias inesperadas.
Só por isso vale a pena dar mais passos, na estrada longa...

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